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  • 10 de dez. de 2020
  • 1 min de leitura

Minha escrita está difícil.


Não consigo mais encontrar as palavras que dão mais contornos e significados às minhas frases. Eu sou óbvia, clara e sem graça agora.


O que você está lendo é isso mesmo que eu quero dizer.


Não tem um sentido mais profundo, não tem delicadeza e você nem precisa se esforçar pra entender a totalidade das minhas linhas.


Eu costumava escrever as entrelinhas, usar metáforas e termos com significados múltiplos. Adorava amarrar uma história toda só nas últimas frases. Jogar verbos potentes em frases solitárias que encadeavam a minha respiração.


Gostava de sentir que o meu texto era o texto de quem lia.

Pra cada pessoa, um significado diferente.


Quantas vezes minha irmã me perguntou se eu havia escrito pra ela. Quantas amigas e amigos usaram meus contos e poemas para explicar o que eles estavam sentindo naquele momento. Uma até me pediu pra assinar com o nome dela.

Eu deixei.


Afinal as palavras estão aí e a mistura delas é eterna. Depois escrevo outro, outros, milhares de outros, infinitos outros.


Agora o léxico me trai. Não é o velho clichê de que as palavras me escapam. Elas estão aqui, mas só as pueris e ululantes.


E este é o fim possível dessa divagação das 10 semanas (tem uma azeitona verde no meu útero ao que tudo indica).


Pelo menos consegui usar: contornos, entrelinhas, metáforas, léxico, pueris e ululantes.

Atualizado: 26 de jan. de 2021


Primeiro preciso dizer que a gente perdeu um bebê em maio.

Foi bem no início da gestação, mas o processo foi tão extenso e intenso que acabou ganhando a primeira posição na minha listinha de traumas.

Depois eu conto melhor o que foi que aconteceu.


Mas por causa dessa história, decidi(mos) não contar para muita gente até completar as tais 12 semanas de segurança.


Depois de curados da Covid, fomos fazer o primeiro ultrassom para ver se o embrião estava com batimentos e estacionado no lugar certinho.

Está tudo perfeito e sou puro alívio depois disso.



Com muita alegria, contamos pra minha família e pra dele e pedimos segredo a todos.


Meus irmãos vieram nos encontrar e abrimos uma (ou duas, ou três...) garrafas de vinho pra comemorar.



Logo dormi, porque nesse momento acumulo o sono da Covid recém curada e do primeiro trimestre de gestação.




Agora preciso dizer que o Bruno, meu marido, é um fotógrafo famosinho e uma verdadeira blogueirinha de Brasília. Tem 30 mil seguidores.


Quando acordei às 6h para fazer uma boquinha (Quando não estou dormindo, estou comendo.), meu whatsapp e meu instagram estavam tomados por mensagens.


Eram dezenas de conhecidos e desconhecidos me dando parabéns, melhores amigas indignadas porque não contei nada, todo tipo de mensagens que eu definitivamente não estava preparada para receber.





Bruno postou no instagram dele e acordou ainda bêbado com tiro, porrada e bomba.


Mandei ele à merda.


Minha mãe defendeu o genrinho amado. Logo, mandei ela também.


Peguei minha bolsinha, saí de casa e agora só penso em como poderia matá-lo.

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