10 semanas


Minha escrita está difícil.


Não consigo mais encontrar as palavras que dão mais contornos e significados às minhas frases. Eu sou óbvia, clara e sem graça agora.


O que você está lendo é isso mesmo que eu quero dizer.


Não tem um sentido mais profundo, não tem delicadeza e você nem precisa se esforçar pra entender a totalidade das minhas linhas.


Eu costumava escrever as entrelinhas, usar metáforas e termos com significados múltiplos. Adorava amarrar uma história toda só nas últimas frases. Jogar verbos potentes em frases solitárias que encadeavam a minha respiração.


Gostava de sentir que o meu texto era o texto de quem lia.

Pra cada pessoa, um significado diferente.


Quantas vezes minha irmã me perguntou se eu havia escrito pra ela. Quantas amigas e amigos usaram meus contos e poemas para explicar o que eles estavam sentindo naquele momento. Uma até me pediu pra assinar com o nome dela.

Eu deixei.


Afinal as palavras estão aí e a mistura delas é eterna. Depois escrevo outro, outros, milhares de outros, infinitos outros.


Agora o léxico me trai. Não é o velho clichê de que as palavras me escapam. Elas estão aqui, mas só as pueris e ululantes.


E este é o fim possível dessa divagação das 10 semanas (tem uma azeitona verde no meu útero ao que tudo indica).


Pelo menos consegui usar: contornos, entrelinhas, metáforas, léxico, pueris e ululantes.

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